Home»Artigos de Opinião»Como pagar a conta do combate ao coronavírus? Uma falsa questão

Como pagar a conta do combate ao coronavírus? Uma falsa questão

Essa é uma FALSA questão, conveniente para o discurso pró-austeridade.

Dizem que quanto mais o governo gastar maior será a conta a pagar, mas, se o governo não gastar e a economia desabar, a tal “conta” aumenta.

A despesa de hoje não precisa virar impostos amanhã. A dívida não precisa ser reduzida, ela pode ser rolada. Praticamente todos os países do sistema vão conviver com dívidas públicas mais altas. Esse será um “novo normal”.

A dívida pública é ativo do setor privado, gasto público é receita e o déficit público é superávit do setor privado. Ao gastar, o governo aumenta renda do setor privado e realoca recursos. Ao se endividar, o governo pega $ de quem tem riqueza sobrando e entrega uma dívida.

A trajetória da relação dívida pública/PIB pode ser estabilizada, não com cortes de gastos e aumento da carga tributária, mas com crescimento econômico. O problema a ser enfrentado não será o patamar da dívida, mas os serviços da dívida (juros) pagos por ela.

Portanto, não existe uma “conta do coronavírus” a ser paga.

A questão relevante não é como pagar a conta depois, mas como os gastos públicos e os impostos vão impactar na desigualdade social, na garantia de direitos e na eficiência do sistema.

Desemprego em massa é desperdício de recursos sociais, além da violação do direito humano ao trabalho. Uma política anticíclica que reduz desemprego pode ser eficiente, além de socialmente justa.

Idem para o gasto público em saúde, educação, moradia, saneamento etc.

Por fim, a volta para austeridade fiscal para pagar uma suposta conta da crise seria um desastre. A crise vai deixar um rastro de endividamento, desemprego, miséria, carências sociais…

Vamos precisar derrubar o teto de gastos junto com os velhos dogmas.